O Tempo Desconjuntado - Philip Dick | Resenha

Por - 23:22:00




O Tempo Desconjuntado 

Philip Dick 
Editora Suma

Grandes obras questionaram a realidade, das quais cito Matrix e O Show de Truman, filmes que constroem sua narrativa na desconstrução do mundo das aparências onde os personagens se enredaram. Este, basicamente, é o tema do livro
O Tempo Desconjuntado, do Philip K. Dick, lançado em 2018 pela editora Suma.

A história acontece em uma pequena cidade norte-americana dos anos 1959, na casa de Margo e Victor, e o filho do casal Sammy, é assim que encontramos o protagonista da história, Ragle Gumm. Ele é solteiro, vive com a família da irmã, mas ao contrário de julgamentos antecipados, Ragle não é um derrotado na vida, explico: o homem é o maior vencedor do concurso diário do jornal local, sua fonte frequente de dinheiro. A vida de Ragle segue um roteiro quase fixo: estudar o jogo da semana, aturar as visitas dos amigos da família, vez ou outra flertar com Sra. Black. A vida de subcelebridade — o mais famoso vencedor do desafio confere tal status para ele — vai bem até Ragle se deparar com acontecimentos que o fazem questionar a própria sanidade, sendo assim, impulsionado em uma jornada para descobrir a verdade, ele é levado a uma série de eventos que, talvez, estejam mesmo acontecendo, ou podem ser apenas fruto da mente, agora, perturbada de Ragle. 

O desencadeamento dos acontecimentos tem um ritmo que propícia certa agilidade na leitura, porém, como a maioria dos livros de Philip K. Dick, a leitura exige atenção aos fatos distribuídos durante a narrativa. Não há saltos temporais significativos na história, o que costuma abarcar uma série de furos e pontas soltas nos enredos menos eficientes, mas a linearidade em O Tempo Desconjuntado consegue controlar habilmente as informações entregues ao leitor, as sequências de conflitos que progridem a história são bem amarradas, instigando, portanto, a continuação até o derradeiro desfecho. 
Através de algumas técnicas de escrita, Philip K. Dick aproxima o leitor dos sentimentos de Ragle Gum, como, por exemplo, o uso do monólogo interior: 

“Não, ele percebeu. Eu nunca adivinhei o que as pistas querem dizer. Nunca me ocorreu que alguém o fizesse, que alguém as lesse e fosse capaz de extrair delas algum sentido concreto. Algo como juntar as letras iniciais das palavras, de três em três, somar dez e chegar ao número de um quadradinho específico. Pensando nisso, ele deu uma risada.” 



Observe que os trechos em negrito estão em terceira pessoa, já na maioria do parágrafo, lemos as divagações de Ragle para si próprio. Em certos trechos, o narrador heterodiegético, omnisciente e em terceira pessoa, funde-se com a voz do personagem, aproximando-o do leitor. Ocorre também a troca de pontos de visão com outros personagens, elemento importantíssimo na narrativa, para aprofundarmos na ambiguidade citada abaixo. O uso de fluxo de pensamentos e monólogos interiores é onde podemos compreender melhor o entendimento (e os questionamentos) que Ragle Gum têm sobre as pessoas e a sociedade ao seu redor, contudo, ao adentrarmos na psique do personagem, somos levados à seguinte ambiguidade: seria Ragle Gum um lunático desvairado ou estaria mesmo envolto por algum tipo de conspiração?

“Sou um retardado, um psicótico. Tenho alucinações. Sim, pensou. Insano. Infantil e lunático. O que estou fazendo sentado aqui? Devaneios, na melhor das hipóteses. Fantasias sobre foguetes passando no céu, exércitos, conspirações. Paranoia.” 

Essa ambiguidade é derrubada conforme o final do livro aproxima-se, trazendo um plotwist interessante e satisfatório para a obra. 
Durante a jornada de Ragle Gum, o personagem cresce com as provações enfrentadas, mas em outra virada da história, ele regride quase ao estágio inicial, de onde recomeçará, para, enfim, encontrar a verdade sobre si mesmo. 

O Tempo Desconjuntado é uma ótima história habilmente contada por um dos grandes mestres da ficção científica, uma das melhores que tive em 2018. 





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