A Pérola Que Rompeu A Concha - Nadia Hashimi | Resenha

Por - 18:42:00



A Pérola Que Rompeu A Concha
Nadia Hashimi
Editora Arqueiro


"Filhas de um viciado em ópio, Rahima e suas irmãs raramente saem de casa ou vão à escola em meio ao governo opressor do Talibã. Sua única esperança é o antigo costume afegão do bacha posh, que permite à jovem Rahima vestir-se e ser tratada como um garoto até chegar à puberdade, ao período de se casar.
Como menino, ela poderá frequentar a escola, ir ao mercado, correr pelas ruas e até sustentar a casa, experimentando um tipo de liberdade antes inimaginável e que vai transformá-la para sempre.
Contudo, Rahima não é a primeira mulher da família a adotar esse costume tão singular. Um século antes, sua trisavó Shekiba, que ficou órfã devido a uma epidemia de cólera, salvou-se e construiu uma nova vida de maneira semelhante. A mudança deu início a uma jornada que a levou de uma existência de privações em uma vila rural à opulência do palácio do rei, na efervescente metrópole de Cabul.
A pérola que rompeu a concha entrelaça as histórias dessas duas mulheres extraordinárias que, apesar de separadas pelo tempo e pela distância, compartilham a coragem e vão em busca dos mesmos sonhos. Uma comovente narrativa sobre impotência, destino e a busca pela liberdade de controlar os próprios caminhos."


Enfim, eu preciso dizer que abri meu ano com essa leitura maravilhosa que eu demorei um pouco para conseguir até mesmo fazer resenha sobre ele por medo de não conseguir deixar claro o tanto de coisas que senti com esta leitura.

Para início, ele se passa em uma cultura onde a mulher não tem voz nenhuma, em duas épocas conturbadas e cheias de revira voltas, onde se adaptar é a chave para poder conseguir sobreviver e as vezes, as escolhas que fazemos são herdadas de parentes distantes, mas que a história de vida não deixa de ser uma inspiração para cada passo.

Rahima é a irmã do meio de uma família com outras 5 meninas e no Afeganistão, isto não podia ser mais má sorte. A família só é realmente boa se houver um único filho homem, mas depois de anos e muitas meninas, o filho homem não veio e o Pai delas está cada vez mais decadente pelo vício em ópio e a Mãe, apesar dos esforços para que suas filhas vão para a escola, estão novamente proibidas de sair para as aulas e devem ajudar em casa. Porém, a oportunidade surge para Rahima, quando sua tia, Shaima, surge com uma ideia que pode ajudar a todos na família, uma ideia que já foi utilizada anos e anos antes por sua tataravó. Ela deve abandonar as vestes de menina, cortar os cabelos e trocar seu nome para Rahim e viver como o filho que a família não tinha. O nome desta tradição é bocha posh, permitindo assim que a tímida menina agora tenha direito a ir à escola, brinque até mais tarde na rua, faça amigos pela primeira vez, ela pode deixar sua personalidade quieta e invisível e se tornar alguém que antes nunca seria notada. Porém, assim que ela alcançar a idade, ela deve voltar a ser mulher e seguir as tradições se casando e pertencendo ao seu marido. Mas como desejar voltar a uma vida sendo tratada apenas como um objeto, nunca mais ter sua voz ouvida e nem mesmo poder fazer suas próprias escolhas, agora que ela possui sua liberdade sendo um menino?

"Animada, comecei a correr mais rápido. Ninguém me olhou duas vezes. A sensação era de que minhas pernas estavam livres, em disparada pelas ruas sem que meus joelhos batessem contra a saia e sem me preocupar com olhares de repreensão. Eu era um rapaz e parte de minha natureza era correr pelas ruas." 




Junto a história de Rahima, temos também a tia dela nos presenteando com a história de Shekiba, que era sua trisavó e que muitos e muitos anos atrás, teve sua família devastada pela cólera, suas terras tiradas por seus parentes, sua pele queimada quando criança por um acidente em casa e ela foi assim endurecendo cada vez mais. Mas quando ela pensou que nada melhor podia acontecer em sua vida, ela foi levada para ser guarda no harem do Rei, com isso, ela deve ser um “homem” a serviço do palácio.

E é assim, pouco a pouco que a vida dessas duas vai se entrelaçando, até que finalmente duas mulheres, separadas por anos de distância, tem sua voz unida.

Sinceramente, eu tive vários momentos que chorei durante a leitura, passei um pouco de raiva também e tive que fazer algumas pesquisas sobre cultura afegã. Quando ocorre a transformação de Rahima, é notável a diferença de tratamento que ela recebe dentro e fora de casa, mas mesmo assim ela sabe em seu coração que aquilo é injusto e uma hora ela terá que voltar a sua própria realidade sendo mulher e quando tudo aconteceu foi extremamente doloroso. Em um país dominado por senhores da guerra, as vontades de homens que ganham a vida com violência são obedecidas com medo e admiração, e é nas mãos de um senhor de guerra que a vida de Rahima muda radicalmente.

Eu vou evitar ao máximo os spoilers aqui, mas preciso contar que ver uma menina de 13 anos se tornar a 4ª esposa de um homem com 30 anos a mais que ela, foi extremamente doloroso a ponto de não conseguir segurar as lágrimas.
Foi uma leitura emocionante, engrandecedora e que eu fiquei muito grata pela oportunidade de leitura.






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